Insights buildon · Estratégia & Execução

Crivo Estratégico: o que dá a uma prioridade
o direito de virar meta

Entre decidir a estratégia e desdobrar o OKR existe uma etapa que quase ninguém faz. É nela que a lista de vinte iniciativas vira uma lista de quatro.

Antonio Zubieta · Founder buildon 6 min de leitura

O Crivo Estratégico é a etapa entre a definição da estratégia e a execução por OKRs. Nela, cada prioridade candidata é validada e sequenciada antes de ter permissão de virar objetivo de equipe. Em português, "passar pelo crivo" significa passar por um exame rigoroso, e é exatamente essa a função: separar a prioridade real da prioridade barulhenta, e definir a ordem entre as que sobraram.

O intervalo

Um crivo que não barra nada não é um crivo.

A estratégia foi decidida. As avenidas de crescimento estão claras. A liderança sai da sala alinhada. E então, na semana seguinte, alguém abre uma planilha e começa a listar as iniciativas do ano.

É aqui que a estratégia costuma morrer, sem que ninguém perceba.

Porque a lista não nasce da estratégia. Ela nasce da organização: cada área traz o que já vinha fazendo, o que ficou pendente do ano passado, o projeto que o diretor defende há três ciclos. A lista é legítima, cada item é defensável, e nenhum deles foi testado contra a diretriz.

Aí a empresa faz o movimento fatal: pega essa lista e transforma em OKR. O instrumento é bom, a governança funciona, a cadência roda e a empresa executa com disciplina exemplar um conjunto de coisas que ninguém verificou se levam a algum lugar.

Não existe OKR que conserte uma prioridade errada. Ele só faz você chegar mais rápido no lugar errado!

A função

Valida. E sequencia.

Duas coisas, e a segunda é a que quase todo mundo esquece.

Valida. Cada iniciativa candidata precisa provar que merece existir. A pergunta não é "isso é bom?", porque quase tudo é bom. A pergunta é "isso é o que vamos fazer este ano, sabendo do que estamos abrindo mão?".

Sequencia. Das que passam, poucas começam agora. A maioria das iniciativas não é rejeitada, é ordenada. Uma iniciativa boa na hora errada é uma iniciativa que falha, e ela costuma falhar levando junto a credibilidade do modelo inteiro.

Validar sem sequenciar produz uma lista de coisas certas acontecendo todas ao mesmo tempo, o que na prática é o mesmo que nenhuma acontecendo.

O método

As quatro perguntas importantes.

Cada iniciativa candidata passa por quatro perguntas. Não passar em uma não significa necessariamente ser descartada, e essa distinção é o coração do método.

Sobe até a diretriz?

Pergunte "por que esta iniciativa?" e siga subindo. A resposta precisa chegar a uma avenida de crescimento ou a uma diretriz de longo prazo. Se ela sobe um nível, sobe outro e se dissolve em adjetivo ("é importante", "é estratégico", "o mercado exige"), a iniciativa não tem lastro. Barra, sem exceção. É aqui que o crivo é mais impopular: a maioria das iniciativas que morrem no crivo morrem nesta pergunta, e quase sempre são as mais queridas de alguém.

O valor está dimensionado?

Quanto isso vale, em número, conectado ao plano? Não precisa de precisão de planilha, precisa de ordem de grandeza defensável. Se ninguém sabe dizer, a iniciativa ainda não é uma prioridade: é uma intenção. Não barra: devolve. A iniciativa volta para quem a propôs, para ser dimensionada. Muitas não voltam, e isso já é uma resposta.

O habilitador existe?

Toda iniciativa depende de alguma coisa: um sistema, uma pessoa, um dado, uma decisão anterior. Se o habilitador não está pronto, a iniciativa não está errada, está adiantada. Não barra: sequencia. É desta pergunta que nasce a ordem. E é por isso que o crivo produz um calendário, não um ranking.

Cabe na capacidade?

As que passaram nas três primeiras são confrontadas com a capacidade real de execução, pela matriz esforço × valor. E aqui vale a regra mais dura do crivo: se todas passaram, nenhuma passou. Um crivo que aprova a lista inteira apenas carimbou o que a organização já ia fazer de qualquer jeito. A renúncia é o produto do crivo, não um efeito colateral dele.

O produto

O que entra e o que sai.

Entra: a lista bruta de iniciativas candidatas, do jeito que a organização produziu, com as suas duplicidades e as suas paixões.

Sai: um número pequeno de prioridades sequenciadas, cada uma com lastro na diretriz, valor dimensionado e habilitador identificado. É essa lista, e só ela, que tem permissão de virar OKR anual da liderança.

O que não passou não vira backlog. Vira decisão registrada, com o motivo.

A mesa

Quem participa do crivo?

A pergunta parece de logística, mas é de desenho. E ela se resolve invertendo o que se costuma perguntar.

Não pergunte quem seria útil na sala. Pergunte quem pode dizer não.

O produto do crivo é a renúncia. Se ninguém na mesa tem autoridade para matar o projeto de um diretor, o crivo não barra nada: ele recomenda. E recomendação não sobrevive à primeira conversa de corredor depois da reunião. É por isso que a maioria das tentativas de priorização morre. Elas são delegadas para quem tem competência técnica e não tem autoridade política.

O C-level decide. Não é opcional e não é delegável. A primeira pergunta do crivo barra iniciativas queridas de gente poderosa, e isso só acontece na presença de quem pode absorver o desgaste. CEO ausente é crivo sem dente.

Os líderes de área trazem e defendem. Cada um apresenta as suas candidatas e responde às quatro perguntas. Não é julgamento à revelia: quem propôs precisa estar na sala para sustentar o lastro, o valor e o habilitador. Muita iniciativa morre no momento em que quem a propôs tenta explicar por que ela sobe até a diretriz.

Alguém neutro conduz. Quem faz as perguntas não pode ter iniciativa própria na lista. Sem isso o crivo vira negociação, e negociação premia quem argumenta melhor, não o que vale mais. Esse papel pode ser da consultoria, no começo, e depois passa para um multiplicador formado dentro da empresa. Se ele nunca sai da consultoria, o crivo não é da empresa.

Quando: uma vez por ciclo de planejamento, depois de a estratégia estar decidida e antes de qualquer OKR anual existir. O crivo é o portão entre as duas coisas. Se ele acontece depois que os OKRs já foram escritos, ele não é um crivo: é uma auditoria, e chega tarde.

O limite

Quando o crivo não é necessário.

Quando não existe diretriz para servir de teto.

O crivo mede cada iniciativa contra a estratégia. Se a estratégia não foi decidida, não há régua, e o crivo vira uma discussão de opiniões com um nome bonito. Nesse caso o trabalho é anterior: decidir onde competir e do que abrir mão. Só depois faz sentido perguntar o que merece passar.

Conclusões

O momento em que a estratégia vira lista.

Toda empresa tem um momento em que a estratégia vira lista. Esse momento quase nunca tem dono, quase nunca tem critério, e é nele que a estratégia se perde, sem barulho, no intervalo entre a sala de decisão e a planilha de iniciativas.

O Crivo Estratégico existe para ocupar esse intervalo. Não é uma ferramenta a mais, é a etapa que decide se a ferramenta seguinte vai servir para alguma coisa.

Porque o instrumento se escolhe depois do diagnóstico, nunca antes dele.

A sua lista de iniciativas passou por um crivo?

Se todas as iniciativas do ano passaram, provavelmente nenhuma passou. Vamos conversar sobre o que merece virar prioridade na sua empresa.

Vamos conversar →

Mais insights

Estratégia & Execução
A F1 e os três níveis de uma empresa que performa

O piloto executa. O muro decide a corrida. A montadora decide o campeonato.

Ler artigo →
Governança
Governança de resultados em três níveis

Por que o seu OKR morre no segundo trimestre, e o que vem antes dele.

Ler artigo →
Priorização · Lendo agora
Crivo Estratégico

O que dá a uma prioridade o direito de virar meta.