Existe um número que você já ouviu. Provavelmente numa apresentação, provavelmente de um consultor, provavelmente no terceiro slide: 70% das transformações falham. Esse número nunca foi medido.
Uma corrente de citações que se sustenta no ar.
Em 2011, o pesquisador Mark Hughes publicou no Journal of Change Management um trabalho que fez a única coisa que ninguém tinha feito: foi atrás da origem. Ele revisou criticamente as cinco publicações que estabeleceram o número, e não são fontes pequenas. São Hammer e Champy, Beer e Nohria, um artigo da Bain & Company, um artigo da McKinsey e Kotter. A nata da literatura de gestão.
Em cada uma delas, o mesmo padrão: ou o número era afirmado sem evidência, ou a fonte citava outra fonte, que o afirmava sem evidência.
A conclusão do artigo, nas palavras do próprio autor, é seca:
Embora se reconheça a existência de uma narrativa popular de 70% de falha em mudanças organizacionais, não há evidência empírica válida e confiável que sustente tal narrativa.
O número nunca caiu porque nunca foi do interesse de ninguém derrubá-lo: a cura que ele sugere é justamente contratar quem o está citando.
Eu sou consultor. E não vou escrever este artigo fingindo que estive de fora: esse número já apareceu em material meu, e eu não conferi de onde ele vinha. Ninguém confere. É esse o ponto.
Não escrevo isso para me diferenciar. Escrevo porque um número que sobrevive trinta anos sem que ninguém verifique a origem diz algo sobre a indústria que o repete, e eu faço parte dela.
Mas há uma consequência prática, e ela é maior que o constrangimento: enquanto todo mundo discute um número inventado, o número real fica sem leitura.
51% no topo. 22% um degrau abaixo.
Donald Sull, Charles Sull e James Yoder analisaram 4.012 respondentes em 124 empresas, entre 2012 e julho de 2017, e publicaram o resultado na MIT Sloan Management Review.
Os achados não são sobre transformações que falham. São sobre algo mais desconfortável.
Apenas 28% dos executivos e gerentes de nível médio responsáveis por executar a estratégia conseguiam listar três das prioridades estratégicas da própria empresa. Um terço deles não conseguia listar sequer uma.
E o dado que muda a conversa: a convergência sobre qual é a estratégia despenca entre o time do topo, com 51% de concordância, e os executivos seniores que se reportam diretamente a ele, com 22%.
Leia de novo, porque é fácil passar batido. Não estamos falando do chão de fábrica. Não estamos falando da equipe de campo. Um nível abaixo do topo. As pessoas que sentam na reunião seguinte à do CEO.
Metade do time do topo já não concorda entre si sobre qual é a estratégia. E um degrau abaixo, a concordância cai pela metade de novo.
Isso não é comunicação. É transmissão.
A leitura preguiçosa é "as pessoas não entendem a estratégia". Ela leva ao remédio errado: mais comunicação, mais townhall, mais slide.
A leitura correta é outra, e está no próprio estudo. Sull e seus coautores identificaram qual era o melhor preditor isolado de alinhamento estratégico. Não era carisma da liderança, não era clareza do plano, não era quantidade de comunicação:
Era a consistência com que os gestores explicavam as prioridades da equipe em termos da própria área e da empresa inteira.
Ou seja: o alinhamento não depende de quanto se fala da estratégia. Depende de existir alguém, em cada nível, capaz de traduzir a diretriz da empresa para a linguagem daquela equipe, sem perder a conexão com o todo.
E é por isso que a estratégia morre com o plano intacto. Ninguém errou o diagnóstico. Ninguém escolheu a avenida errada. A decisão foi tomada, foi boa, e simplesmente não atravessou o primeiro andar.
Por que formular melhor não resolve.
A reação natural de uma liderança diante desses números é refazer o plano. Contratar um estudo. Rodar outro planejamento estratégico. Comprar mais formulação.
Mas repare no que o dado diz: as pessoas que não sabem citar a estratégia são as responsáveis por executá-la. Elas não estão discordando do plano. Elas não têm o plano.
Um plano melhor, entregue pelo mesmo caminho, chega no mesmo lugar: em lugar nenhum. Você não conserta um problema de transmissão aumentando a potência do transmissor. Você conserta construindo os níveis intermediários que faltam.
Quando o assunto é execução, quase todo mundo pula direto para o instrumento: OKR, KPI, painel, cadência. É a mesma pressa de comprar o remédio antes do diagnóstico. E é por isso que tantas implantações de OKR morrem no segundo trimestre: o OKR foi instalado num vácuo.
Antes do instrumento vem a pergunta de o que merece virar prioridade. E entre a diretriz e a meta da equipe vem a camada que quase todo mundo pula.
O número que importa é o seu.
Se você quiser um só número para levar desta leitura, não leve o 70%. Ele não existe. Leve 51% e 22%.
E depois faça o teste na sua empresa, que custa uma reunião: peça aos seus reportes diretos que escrevam, cada um em silêncio e sem consultar nada, as três principais prioridades estratégicas da companhia.
Compare as folhas.
O resultado dessa reunião vale mais que qualquer estudo, inclusive este.
Estratégia não morre por ser ruim. Morre por não chegar.
O plano está no servidor, correto e bem argumentado. A diretriz foi decidida. E entre a sala onde a decisão aconteceu e a segunda-feira de manhã de quem precisa executá-la, existe um intervalo que ninguém assumiu como seu.
É nesse intervalo que a buildon trabalha. Não porque diagnosticamos melhor, mas porque ficamos até a decisão chegar na ponta.
Fontes
- Hughes, M. (2011). "Do 70 per cent of all organizational change initiatives really fail?" Journal of Change Management, 11(4), 451-464. DOI: 10.1080/14697017.2011.630506
- Sull, D., Sull, C. & Yoder, J. "No One Knows Your Strategy, Not Even Your Top Leaders." MIT Sloan Management Review. Ler
- Sull, D., Homkes, R. & Sull, C. (2015). "Why Strategy Execution Unravels, and What to Do About It." Harvard Business Review, março de 2015. Ler
Fez o teste e as folhas não bateram?
O problema não é o seu plano. É o caminho entre ele e a sua equipe. Vamos conversar sobre como construir esse caminho.
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